Sunday, 29 October 2017

Dia 86 - Bruxas

Aviso prévio - como prometido, aqui fica o meu ensaio sobre os males associados a essa péssima ideia que é o hotel-cápsula. Espero que gostem.

Pela positiva, na noite passada dormi que nem um anjinho depois  de ver o Lost in Translation (excelente filme) enquanto a minha roupa acabava de secar. Pela negativa, fui acordado às 9:56 da manhã com três murros na minha “cápsula” pelos senhores da limpeza, que apesar de eu ficar mais uma noite têm por força de me mudar os lençóis. Ora quando fiz o check-in fui informado de que entre as dez da manhã e as quatro da tarde se efectuavam limpezas, mas daí ao hotel pura e simplesmente não funcionar e me arrancarem da cama quatro minutos antes da hora vai uma grande distância…


Apesar das dificuldades logísticas lá consegui ir dar uma corrida à volta do Palácio Imperial, que me surpreendeu por não ter sido tão lenta quanto temia, o que só pode ser atribuído aos poderes mágicos de uma noite bem dormida. Depois de conseguir tomar banho e um pequeno almoço rápido segui em direcção a Ginza onde me encontrei com o Anthony e passei um par de horas a gastar mais do que devia em presentes antes de irmos a Shibuya, para mostrar a mais famosa passadeira do Mundo ao rapaz e me despedir da estátua do Hachikō, de longe o meu cão favorito. Despedimo-nos depois de bebermos uma cerveja na Kirin City, a sucursal central da minha cervejaria Japonesa favorita, com planos vagos de talvez nos encontrarmos à noite se os planetas se alinhassem, mas a verdade é que ambos sabíamos que isso seria pouco provável.


Tendo adquirido peso a mais que chegue na minha mala por hoje voltei à minha cápsula para um duche e uma muda de roupa antes de ir ter com a Simran, amiga do Pete com quem já tínhamos saído à noite na nossa primeira paragem em Tóquio. A house party onde ela me conseguiu infiltrar, no vigésimo-nono andar de um arranha-céus perto do centro, estava relativamente vazia mas com gente que - assim como o resto do Japão - claramente leva o Halloween a sério. Confiando na Simran, que me disse para não me preocupar com disfarces porque ninguém ia dar grande importância, acabei por ser a única pessoa que vi a noite inteira que não estava mascarada (até a Simran já tinha arranjado uma máscara antes de eu chegar). Da festa seguimos para uma discoteca, perto de Shibuya, onde nos encontrámos com outros amigos da Simran e onde passei o resto da noite a falar com desconhecidos até ao primeiro comboio.


Obviamente que a minha experiência é breve, mas as dificuldades de comunicação entre estrangeiros e japoneses (provenientes da falta de uma língua em comum, uma vez que os primeiros têm dificuldade em aprender japonês e vice-versa) levam a que haja uma divisão social entre os dois grupos. Infelizmente, o grupo de expatriados com quem acabámos não toca na mesma tonalidade que eu, portanto voltei à cápsula com memórias de excelentes disfarces, boa música e péssimas conversas - numa delas, um rapaz respondeu à minha pergunta sobre o seu emprego com as palavras “arranjamos bolsas de estudo para crianças órfãs” em voz muito alta e em várias direcções, claramente a ver se alguém o ouvia… Ainda assim agradeci à Simran por me ter trazido à boleia já que, antes de mais, a noite me ensinou uma coisa - se alguma vez considerar mudar-me para o Japão preciso de dedicar três ou quatro anos a aprender a falar japonês antes de o fazer…

Beijos e abraços,
Ginete

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