Acordar com a notícia do cancelamento de um voo é sempre agradável, mas a realidade de que o mau tempo nos vai custar uma noite em Da Lat depois de várias mudanças de horário dá-me a certeza de que a Vietnam Airlines é, das duas uma, amaldiçoada por um qualquer demónio ou simplesmente incompetente. Felizmente conseguimos alterar a nossa reserva para o último voo de hoje (uma vez que a alternativa, o ultimo voo de amanhã, me deixaria com a tarefa ingrata de inventar uma máquina do tempo se quisesse apanhar o meu voo de volta a casa) e ainda teríamos algumas horas para explorar os arredores de Da Lat antes de voltarmos a HCMC.
Arranjar quem nos levasse até às Cascatas do Elefante (assim baptizadas por nascerem numa montanha que alegadamente se parece com o simpático mamífero) foi uma tarefa complicada, já que a comunicação em Inglês por estes lados não é tão fácil como nos outros sítios onde tínhamos estado. Após um par de tentativas acabámos num hostel, onde as acções do rapaz da recepção pareciam indicar que nos podia ajudar, apesar de as palavras dizerem pouco. Com efeito, o rapaz acabou por chamar dois “Easy Riders”, guias locais que levam passageiros à pendura nas suas motas pelas zonas campestres que rodeiam a cidade de Da Lat. Visto que a Mari não achava grande piada à ideia de andarmos seis horas à pendura de desconhecidos num dia que prometia chuva e vento acabámos por lhes pedir para irmos de carro e, pela hora de almoço, estávamos a caminho das cascatas. Como é inevitável nestas viagens fomos parando aqui e ali, ora para apreciar a excelente vista ora para nos ser mostrada a produção de Son Tinh, licor feito a partir da destilação de vinho de arroz que os locais preferem à cerveja pela imbatível relação embriaguez/preço.
Antes de chegarmos ao nosso destino fizemos ainda uma paragem num templo budista, o maior na região de Da Lat. Creio ser do conhecimento dos caros leitores que, desde há umas semanas a esta parte, tenho começado a desenvolver sinais de estar ligeiramente farto de templos - budistas ou do que quer que seja. Ainda assim foi-me impossível ficar indiferente à estátua de um Buda gigante nas traseiras do templo, cuja expressão contagiante de alegria e gozo foi suficiente para me deixar de melhor humor depois de uma manhã um tanto ou quanto frustrante. A chegada às cascatas, tão próximas do templo que mais valia termos ido a pé, deixou-nos suficientemente satisfeitos e justificou perfeitamente a hora e meia de caminho para lá chegarmos.
O exercício de saltar entre as pedras escorregadias agarrados a corrimãos metálicos (raramente fixos a coisa alguma) para chegarmos mais perto das cascatas, imersos na espécie de nevoeiro de chuva miudinha característico de sítios onde água cai de uma altura de quase uma centena de metros, foi um bom substituto para a corrida à volta do lago que não dei esta manhã. Depois de me meter num caminho sem saída mas com uma enorme poça de lama, onde enterrei a totalidade do meu pé esquerdo, e de apreciarmos a cascata e a paisagem que a rodeia voltámos a Da Lat com mais uma curta paragem numa plantação de café, que apesar de se situar numa colina vistosa não tinha grande interesse para quem não é apreciador de doninhas enjauladas.
Após um duche rápido e de jantarmos na pizzaria que na noite anterior tinha esgotado o seu stock de pizzas seguimos para o aeroporto, onde embarcámos para o nosso voo antecipado para Saigão, tão curto que o sinal de apertar os cintos de segurança esteve desligado cerca de cinco minutos entre a subida e a descida. A minha última noite antes de regressar à Europa (é verdade…) foi relativamente calma apesar de a rua Bui Vien, o centro da cena “backpacker” em HCMC, estar bastante mais animada do que quando cá tinha estado com o Ben - talvez por ser sexta à noite ou por a época das chuvas estar a chegar ao fim.
Ainda assim acabámos por voltar ao bar com música ao vivo onde eu e o Ben bebemos um par de cervejas há mês e meio, repetindo o ritual enquanto assistíamos a covers que variavam do muito bom (as que eram executadas pelos músicos, que apesar de parecerem ter quinze anos eram afinadotes) ao doloroso (a da senhora que tentou cantar Adele para o namorado aniversariante e acabou por gerar uma manifestação geral de vergonha alheia ainda maior do que o rapaz do cabelo azul tinha conseguido na noite anterior).
Antes de ir dormir voltei à rua cinco minutos para tirar fotografias e acabei por ficar meia hora a observar a mistura de miúdos vietnamitas a celebrar o fim da semana, viajantes a aproveitar a sua liberdade temporária e pais com bebés ao colo a fazer sabe-se lá o quê. Apesar de ter acontecido por acaso, passar os últimos momentos noctívagos desta viagem a observar o que se passava na rua cheia de vendedores ambulantes e luzes de néon foi a maneira ideal de me despedir do Vietname, deixando-me curioso sobre como seria Saigão quando os primeiros “backpackers” inauguraram o caminho hoje em dia percorrido por meio Mundo de mochila às costas. O Vietname pode ser o sítio de que menos gostei nesta viagem, mas ainda assim tenho de admitir que esta rua, neste dia e a esta hora não deixa de ter um certo encanto.
Beijos e abraços,
Ginete






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