Sunday, 10 September 2017

Dia 38 - Pernas

Antes de mais, parece-me necessário assumir que fui um pouco injusto ontem ao chamar a Ella uma mini-Munnar. É certo que existem parecenças, mas comparar uma tarde chuvosa nas montanhas de Kerala com um dia e meio de sol aqui é claramente injusto. Julgamentos à parte, o nosso segundo dia em Ella foi passado de mochila às costas a subir e descer montanhas através de estradas, caminhos e... escadarias.


A primeira paragem do dia, depois de tomarmos o pequeno almoço a admirar a vista ridícula da nossa pousada, foi a Nine Arches Bridge. Para nossa grande surpresa, trata-se uma ponte com nove arcos, ainda atravessada pelos comboios da linha que amanhã nos levará a Kandy, construída no início do século vinte por locais em pedra e tijolo após o aço que inicialmente lhe estava destinado ser desviado pelos britânicos para o esforço da Primeira Grande Guerra.


O resultado é uma estrutura perfeitamente enquadrada com a paisagem que a rodeia, tornando-a num destino popular tanto para turistas como para locais. Dois guardas tentam os possíveis para não deixar visitantes corajosos sentarem-se à beira da ponte mas não parecem muito preocupados com quem anda nos carris, talvez porque os comboios só muito raramente atravessem a ponte (estivemos cerca de uma hora por lá e não vimos nenhum).


Daí seguimos  para o Little Adam's Peak, a versão em miniatura da montanha sagrada para os Budistas e com o mesmo nome, mas sem o "Little". Consideravelmente menos árdua do que a dos 2,243 metros da original, a subida a esta montanha deixou-me ainda assim coberto em suor devido ao sol firme e céu mais ou menos azul que nos abençoou no dia de hoje.


Chegar ao primeiro pico até foi relativamente fácil, em parte devido aos degraus que se estendem sobre a quase totalidade do caminho, e a vista das paisagens verdejantes e acidentadas, ocasionalmente atravessadas por estradas que dariam uma boa etapa de rally, é um prémio mais do que satisfatório. Já o caminho para o segundo pico é mais trabalhoso, com a escadaria de cimento substituída por um íngreme caminho de pedras e terra batida, perfeito para testar as capacidades dos All-Star da Ana. O esforço é recompensado com uma vista absurda da transição da região montanhosa que nos rodeia para o terreno plano, que começa lá ao fundo e se estende até ao horizonte.


Para ser sincero, o post de hoje poderia ter-se resumido a fotografias de paisagens deslumbrantes, uma vez que é pouco provável que as minhas palavras lhes façam justiça. A cereja no topo do bolo, depois de um lanche ajantarado que nos satisfez o enorme apetite criado pelas diversas subidas e descidas, foi um pôr-do-sol em tons de vermelho que fechou em alta a nossa estadia em Ella.


O que lhe falta em tamanho é compensado em charme, não só o do cenário pitoresco mas sobretudo o das pessoas, sempre amáveis e com um sorriso na cara. Fora o senhor do nosso hotel, que mesmo quando sorri parece estar às avessas com o Mundo. Às vezes apetece-me dar-lhe um abraço, mas é possível que isso tornasse o resto da nossa estadia um tanto ou quanto desconfortável...

Beijos e abraços,
Ginete

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