Como já não corria desde Leh, que me parece ter sido há cerca de uma década, decidi que o ar fresco das montanhas de Kandy eram o local ideal para tentar uns tranquilos cinco quilómetros. Errado. O facto de ter ficado tanto tempo parado fez-me claramente esquecer que subidas e descidas não têm grande piada, e que estradas movimentadas com autocarros e camiões a jorrar fumo preto não facilitam a actividade aeróbica. A minha palermice fez-me chegar ao quarto quase meia hora depois, mais encharcado do que se tivesse mergulhado no Lago Kandy.

O nosso último dia no Sri Lanka foi bastante calmo, tendo como ponto alto a visita ao templo onde está guardada a relíquia de um dente de Buda. Os traços serenos e, ao mesmo tempo, grandiosos são complementados pela meditação silenciosa dos budistas, conferindo até a um turista de máquina fotográfica na mão uma paz inesperada que me fez deixar a Ana à minha espera cerca de quarenta e cinco minutos. Não tão concorrido como na noite anterior (mas não "fechado", como um senhor de apelido "Silva" nos tentou fazer crer), acabou por ser melhor assim e fiquei com vontade de ter ficado mais tempo se não tivéssemos um comboio para apanhar.

A viagem de comboio em Segunda Classe foi atribulada, tanto devido à chuva como aos violentos abanões que se sentiam sempre que o acelerávamos acima dos cinquenta quilómetros por hora a que viajávamos nas montanhas. Apesar da intensa carga de água que nos acompanhou durante a primeira meia hora de viagem, o percurso montanhoso lembrou-nos mais uma vez que o Sri Lanka é um país de uma beleza inegável, onde facilmente passaríamos um mês a explorar o que este tem a oferecer. O Norte do país, menos fustigado pelo Tsunami de 2004, tem agora as melhores praias e o Sigiriya (uma espécie de versão Srilankesa do Uluru Australiano) são só dois exemplos do que ficou por ver. Até Colombo, onde passámos apenas umas horas entre o nosso comboio e o nosso voo para Singapura, nos deixou curiosos para passar um dia ou dois e conhecer um pouco mais do que o simpático pôr-do-sol que nos foi oferecido à saída da estação.

Roubando a frase que a Ana vem repetindo há horas, os Srilankeses são fofinhos. Não é por acaso que em nenhuma das das línguas locais (Cingalês e Tamil) existe uma palavra para "Olá", com o simples e simpático sorriso dos locais servindo de saudação. Para um país que sobreviveu a trinta anos de guerra civil e um Tsunami devastador, a hospitalidade e simpatia inesgotáveis dos Srilankeses é incrível e põe os nossos "dias maus", que às vezes nos fazem carrancudos, sob uma nova perspectiva. O país em si é rico em beleza natural e só por isso mereceria outra visita, mas é dos seus habitantes que advém a maior parte do seu charme.

Comparar o Sri Lanka à Índia é difícil, mas ainda assim farei os possíveis - enquanto que a Índia é um país difícil de visitar, em que assim que saímos do avião mergulhamos num caos pouco organizado ao qual estamos constantemente surpreendidos por sobreviver ilesos, é também um sítio incrivelmente rico em paisagens, culturas e experiências. A Ilha Resplandecente (significado do nome do país em Sânscrito), por outro lado, é uma lufada de ar fresco, fácil de navegar para qualquer turista e com uma beleza natural e humana inegável. Ainda assim, e ao contrário da Ana, continuo fiel ao segundo país mais populoso do Mundo - é chato, confuso e mal-cheiroso mas tudo isso vale a pena ao nos depararmos com o Taj ou ao percorrer as montanhas de Ladakh ou ao atravessar de scooter as aldeias coloridas de Goa. Ainda assim, do Sri Lanka só levo boas recordações e vontade de voltar. Quanto aos Srilankeses, esses conquistaram um lugar nos nossos corações que tão depressa não perderão.
Beijos e abraços,
Ginete
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