Tuesday, 3 October 2017

Dia 60 - Pagodes

Mandalay foi a última capital do Império Birmanês durante breves vinte e seis anos, até à anexação do país pelo Império Britânico que duraria até ao fim da Segunda Guerra Mundial, onde mais de metade dos edifícios da cidade foram destruídos por bombardeamentos da força aérea Japonesa. Hoje, no entanto, ao escrever o nome “Mandalay” no Google a primeira página de resultados diz respeito aos inacreditáveis acontecimentos em Las Vegas, onde um senhor munido de uma dezena de armas de alto calibre se hospedou no hotel Mandalay Bay, de onde disparou sobre uma multidão que assistia a um concerto de música, matando (até agora) 58 pessoas e ferindo outras centenas. Se a simpatia dos mianmarenses aumenta temporariamente a minha fé na bondade humana, notícias como as de Las Vegas fazem-me rapidamente voltar à estaca zero…


O plano inicial de usar as bicicletas disponibilizadas pelo hotel foi por água abaixo rapidamente já que a Renu (a minha colega de viagem para esta semana) não está habituada a andar de bicicleta no meio do trânsito e desistiu da ideia após cem metros. Montados na nossa scooter (cujo travão traseiro estava, ao início, desactivado só para ver se estávamos atentos…) fomos ao Jade Market, o mercado de bijutaria local. Apesar de já estar a acalmar à hora que chegámos ainda conseguimos ver gente a trabalhar pedras preciosas, senhoras a vender snacks e homens a jogar bilhar e carom (uma espécie de mistura entre air hockey e snooker, que a Renu joga com a família depois de jantar sempre que vai a casa).


O Mosteiro de Shwe In Bin estava tão calmo e vazio que suspeitámos que estivesse fechado, até repararmos num grupo de monges a dormir e a consultar os respectivos Instagrams no rés do chão da estrutura, cujas imponentes e ornamentadas paredes em madeira tornam a tranquilidade do sítio ainda mais arrepiante. Daí seguimos para o Palácio de Mandalay, que só depois percebemos ser uma reconstrução do original, quase inteiramente destruído na Segunda Grande Guerra. Ainda que agradável e bastante dourado, o sol firme e o calor insuportável fizeram-nos fugir para um café, onde apesar das nossas tentativas não conseguimos encontrar nada que não fosse um passo na direcção da diabetes tipo 2.


Com os níveis de açúcar no sangue mais do que restaurados seguimos para o Pagode Sandamuni, um templo com um Buda no centro rodeado de mais de um milhar de pequenas cúpulas, cada uma com um fragmento dos seus ensinamentos cravado em pedra. Rodeado por um parque de diversões que daí a umas horas estaria ao rubro, é ainda assim um sítio calmo e com mais visitantes locais do que estrangeiros. Já o chão em mármore preto não é a melhor ideia quando combinado com a obrigatoriedade de remover sapatos e meias à entrada e o sol abrasador que se verificou durante toda a tarde…


A subida ao Mandalay Hill duraria, supostamente, 45 minutos se feita a pé. A inclinação e o tempo que nos demorou a subi-la de scooter faz-me pensar que se tivéssemos seguido essa opção teríamos perdido o pôr-do-sol. Assim, e após atingirmos o auge da preguiça ao subirmos até ao topo de escadas rolantes, pudemos apreciar o bastante foleiro Pagode Su Taung Pyae antes de o sol se pôr - amigos Budistas por favor não levem a mal mas, das centenas de pagodes que já vi esta viagem, este era claramente o mais feinho.


Depois de um duche altamente necessário acabámos a jantar numa cervejaria em que nenhum dos empregados falava inglês, mas que por ter um menu traduzido foi apenas uma introdução à experiência de comer fora na China, que o Amar e a Alice tão eloquentemente descrevem no seu blogue. Ao perguntarmos o que eram algumas das escolhas no menu recebemos uma mistura de silêncio confuso e palavras indecifráveis, pelo que acabámos por escolher a apontar para o menu e rezar que não fosse nada de muito estranho. Quando o empregado lhe perguntou se queria o seu prato picante a Renu disse claramente que não, mas ainda assim as três ou quatro colheradas que experimentei deixaram a minha boca próxima da temperatura do Sol. Ainda assim os senhores tinham piada e eram muito simpáticos por isso, apesar de ter suado bastante, não consigo ficar muito chateado com eles…

Beijos e abraços,
Ginete

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