A sequência de eventos que se segue é tão verídica como embaraçosa, e é com uma pontinha de mágoa que a passo a relatar. Tendo planeado ir a um restaurante (que por alguma razão que nos escapa estava fechado até às duas da tarde) acabámos noutro sítio, em Connaught Place, recomendado pelo condutor do rickshaw. Não obstante ser a fonte mais provável da indigestão que presentemente nos aflige, acabámos sentados ao lado de um senhor simpático que nos perguntou aonde íamos a seguir. Quando falámos em Shimla e Manali, aconselhou-nos a passar pelo posto de turismo ali ao lado, visto que tinha havido um desabamento de terras entre os dois sítios (esta parte é verídica, já tínhamos lido sobre isso nas notícias) e talvez não fosse possível ou aconselhável ir lá. Assim fizemos. O que aconteceu a seguir é difícil de explicar - basicamente sentamo-nos à mesa de um senhor que nos disse que Shimla e Manali estavam “fechados” e que deveríamos ir a outro sítio. Daksum, um “paraíso” em Kashmir, no meio dos Himalaias, onde ele nos marcava tudo por uma módica quantia da qual era subtraído o reembolso dos bilhetes de comboio e avião que já tínhamos adquirido. Em parte devido à quantidade absurda de informação que nos foi arremessada de uma vez, mas também devido ao facto de sermos dois palermas a precisar de dormir, acabámos por cair que nem dois patinhos na conversa do senhor.
Só mais tarde, ao perguntarmos a amigos que tínhamos conhecido na noite anterior, percebemos que Kashmir não é propriamente o sítio mais pacífico à face da Terra. Parece que há uma disputa territorial entre vizinhos que leva a que o nosso seguro de viagem não seja válido por esses lados, e a que o Ministério dos Negócios Estrangeiros Britânico não aconselhe o Ben a aventurar-se por esses caminhos. Percebemos também que o “posto de turismo” era uma agência de viagens de reputação duvidosa, com vários relatos de clientes irados disponíveis on-line. Basicamente percebemos que tínhamos acabado de oferecer uma boa fracção do nosso orçamento para esta viagem a um senhor bem-falante e cheio de experiência em apanhar turistas desprevenidos, que provavelmente nos vendeu um pacote que não estava a ter grande saída por haver poucos fãs de ataques terroristas a viajar pela Índia… Ainda não temos um plano final, mas estamos a pensar em ignorar o pacote do senhor e marcar um voo para Leh Ladakh, a zona mais pacífica de Kashmir, e tentar reaver o nosso dinheiro com meia dúzia de berros e ameaças quando regressarmos. Desejem-nos sorte, e se alguém tiver contactos no Ministério do Turismo da Índia diga qualquer coisa…
Atribulações à parte, hoje é o dia da Independência por estes lados, e eu estava a pensar escrever umas linhas sobre a minha percepção da relação entre a Índia e o Reino Unido, mas como temos de nos levantar a horas obscenas amanhã vai ter de ficar para outra altura. As celebrações foram alegres, patrióticas quanto baste e tranquilas ao ponto de tornarem Delhi numa cidade relativamente pacata (cinco palavras que raramente se encontram na mesma frase). Infelizmente a nossa experiência das celebrações resumiu-se a dez minutos após darmos com o nariz na porta da agência de viagens manhosa, em que o nosso estado de espírito era mais indicado para um funeral do que para um aniversário. Para espairecermos um pouco, acabámos por nos encontrar com amigos que conhecemos no dia anterior para jogar bowling (uma vez que, por ser “dia seco”, estava quase tudo fechado) num dos centros comerciais da cidade. Foi uma experiência estranha, pois ao entrar naquele edifício gigante sentimo-nos instantaneamente como se estivéssemos na Europa. Apesar de ser normal haver diferenças gritantes de riqueza dentro de cidades grandes (Londres e Lisboa não escapam), o tamanho desse fosso em Delhi é de outro nível. Quanto ao bowling levei uma tareia e o Ben foi a estrela do jogo, por isso não vamos falar muito sobre isso…
Beijos e abraços,
Ginete

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