Saturday, 26 August 2017

Dia 22 - Nervos

Conselho para o caro(a) leitor(a) - uma viagem de três horas num Tuk Tuk não é aconselhável, quer em termos de conforto quer no que toca ao efeito na esperança média de vida dos passageiros. Estar protegido por medidas básicas de segurança rodoviária (como cintos de segurança ou airbags) dá sempre jeito, mas raramente senti tanto a falta dos mesmos como nesta viagem de hora e meia para cada lado, em estradas altamente esburacadas, com uma pitada de chuva torrencial e a ausência quase total de respeito pelas regras básicas de circulação. Enquanto que nas cidades já me habituei ao caos organizado que, de uma maneira ou de outra, lá nos vai levando de A para B de forma mais ou menos segura, ser ultrapassado por jipes ao dobro da velocidade da caranguejola em que estou parcamente sentado é uma sensação que quase me deixou a precisar de um novo par de calças.


O meu dia começou de forma mais ou menos agradável, a dar as minhas primeiras braçadas desde a última visita a Agra. Felizmente, esta piscina não tinha armadilhas desenhadas para me ferir os pés durante as viragens e lá me arrastei durante mais ou menos mil metros (o tamanho da piscina foi medido com passos) antes do pequeno almoço. Depois de aproveitarmos o buffet (que nos custou os olhos da cara) para nos alimentarmos até ao jantar, lá despachámos os serenamente simétricos jardins do Taj Mahal e o super-queriducho Baby Taj, os últimos monumentos desta viagem que terei o prazer de ver uma segunda vez (é possível que tenha efectuado uma pequena dança de celebração a esse respeito). Daí seguimos na nossa epopeia Tuk-Tukiana em direcção a Fatehpur Sikri, cidade em tons de arenito vermelho que serviu de capital do Império Mogul durante catorze anos no século XVI, depois de demorar quinze a ser planeada e construída. Consta que o pequeno lago que abastecia a cidade secou pouco depois da mesma ser completada, forçando o Imperador a mudar-se de volta para Agra…


Cerca de cem anos mais antiga que o Taj Mahal e com a terceira maior mesquita da Índia (suplantada apenas pelas de Delhi e Agra), rapidamente ficámos também a perceber que Fatehpur Sikri é a cidade com as pessoas mais chatinhas deste país. Desde o momento em que chegámos, a meio de um pequeno dilúvio, fomos assolados por rapazes a oferecer serviços de guia e a garantir-nos que a chuva torrencial pararia assim que entrássemos no recinto. O condutor do nosso Tuk Tuk foi parado várias vezes por alegadamente só transportes locais poderem chegar perto dos monumentos (obviamente falso) e só depois de muito esforço nos conseguiu deixar perto da Mesquita. Aí fomos interpelados por um rapaz que, depois de o mandarmos embora meia dúzia de vezes, insistiu que não queria dinheiro nenhum porque trabalhava na mesquita e era aquele o trabalho dele. Seguiu-se uma visita guiada à Jama Masjid, incluindo uma porta que supostamente daria acesso a um túnel directo até o Taj Mahal, claramente um acesso de criatividade do senhor. Obviamente que, chegados ao fim da visita, o senhor nos tentou impingir elefantes de pedra supostamente esculpidos pela sua mãezinha ou coisa parecida, e ficou muito chateado por não precisarmos de mais lastro para as nossas mochilas.


Idiotas à parte, não ficámos arrependidos. Talvez menos elegante que outros exemplos de arquitectura Mogul que vimos em dias anteriores, Fatehpur Sikri impressiona sobretudo pela dimensão do complexo e pelo impecável estado de conservação dos edifícios - talvez em parte por terem sido usados durante uns meros catorze anos - e também por não estar pejado de turistas, pelo menos até à invasão de espanhóis que antecipou o nosso regresso…


A viagem de volta foi menos chuvosa mas igualmente atribulada, com o senhor a olhar várias vezes para a roda traseira do lado direito com um certo ar de preocupação que nos deixou ainda mais confiantes nas probabilidades de voltarmos vivos a Agra. Felizmente tudo correu pelo melhor, e depois de um jantar necessário, de um duche de Dodots possível e de uma muda para uma roupa ligeiramente mais limpa e aquecida, fomos em direcção à estação de Agra Cantt para dizer adeus ao sítio mais frustrante que visitei até agora. Se é verdade que quem tem o Taj não precisa de tentar, também o é que o assédio constante aos turistas só vai fazer com que os mesmos nunca mais cá ponham os pés. É, sem dúvida, o meu caso. A não ser que me atirem de pára-quedas para o recinto to Taj e me venham buscar de helicóptero…

Beijos e abraços,
Ginete

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