Monday, 7 August 2017

Dia 4 - Fogo

Apesar dos repetidos avisos de amigos e conhecidos sobre os comboios indianos, a nossa primeira viagem nocturna acabou por não ser nada de outro mundo. Ok - as casas de banho não se aconselhavam, o ar condicionado fez-me ter de vestir uma camisola durante a noite e a chegada foi uma hora e pouco depois do previsto. Se a maioria dos comboios até ao fim da viagem tiverem apenas estes problemas, os filmes de terror que nos descreveram talvez tenham sido um tanto ou quanto exagerados! (Nota do autor: tenho a perfeita noção de que estou mesmo a pedir que as próximas viagens tenham atrasos de dias e/ou acabem num descarrilamento, mas não há de ser nada…)
Como um bónus, o atraso de manhã permitiu-me encontrar uma porta aberta entre duas carruagens, perfeita para apreciar a paisagem e perceber facilmente que estávamos bastante longe de Deli.


À chegada a Varanasi começou a saga sobre a qual já tínhamos sido prevenidos - pessoas a tentar vender-nos coisas/levar-nos a sítios/cobrar-nos dinheiro a mais pelo que quer que seja. Assim que saímos do comboio tivemos um senhor a perseguir-nos que não descansou enquanto não nos sentámos no tuk-tuk dele e depois ficou chateado por termos negociado o preço até a um ponto em que só estávamos a ser ligeiramente roubados. Daqui para a frente ganhámos alergia a pessoas que andam à nossa frente sem lhes pedirmos...


Enquanto que Deli, como disse há um par de posts, me pareceu uma versão mais caótica de Marrakech, Varanasi não tem comparação com nenhum sítio em que já estive. O mais perto que consigo chegar é pegar na Medina de Fez e enchê-la de motociclos cujas buzinas estão presas em modo intermitente, assim como vacas de todos os tamanhos e feitios e os seus respectivos excrementos. Giro, hein?


A festa mensal de Shiva enche a cidade de gente vestida de cores vibrantes, que passam o dia e a noite a rezar junto ao sagrado rio Ganges. As celebrações diárias de cremação dos mortos são hoje suspensas em todas as Ghats com a excepção de Manikarnika Ghat, até onde fomos guiados (lá está) por um rapaz que nos fez questão de levar mais ou menos contra a nossa vontade. Neste caso até lhe ficámos relativamente gratos, já que estas celebrações são a imagem de marca da cidade. Observá-las e ouvir a explicação sobre o significado daquele ritual foi uma experiência estranha - por um lado estávamos perfeitamente cientes de estar a ver corpos a arder, mas por outro a ideia de que os defuntos que participam nestas celebrações atingem o Nirvana torna-as incrivelmente pacíficas e, por estranho que pareça, felizes.


Amanhã o dia começará cedo e acabará com a maior viagem de comboio desta viagem - quinze horas até Agra. Felizmente isso significa que terei tempo para descrever melhor as trinta e seis horas que passaremos em Varanasi, já que tenho de admitir ainda estar um tanto ou quanto atarantado com as primeiras dezoito…

Beijos e abraços,
Ginete

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