Saturday, 12 August 2017

Dia 8 - Muneem

Se a Varanasi tudo se perdoava por ser imperfeitamente perfeita, Jaipur não tem que pedir desculpas. Dois sítios que, não podendo ser mais diferentes, são igualmente essenciais para quem quer conhecer um país com vinte e duas línguas oficiais e outras cem consideradas significantes. Enquanto que Varanasi é quase exclusivamente Hindu e uma amostra do que é a Índia “real”, a tradição e arquitectura Muçulmana são dominantes em Jaipur, e as duas religiões conseguem conviver em relativa harmonia (40% Muçulmanos, 40% Hindus). Como a primeira cidade planeada da Índia, construída quando o Maharaja Jai Singh II decidiu no início do século XVIII que a cidade de Amber não chegava para as suas ambições, o estado de conservação e a organização das estradas e ruas na Pink City são ímpares entre os sítios que visitámos até agora. Já os condutores continuam a fazer questão de ignorar qualquer tipo de sinalização, relembrando-nos que ainda estamos na Índia.


Muneem, o nosso condutor de tuk tuk, faz o mesmo que todos os seus colegas - conduz por onde quer que haja espaço, quase colide com cerca de três veículos ou pessoas a cada cem metros e, com a excepção de semáforos, parece nunca parar por completo.  No entanto, a história do Muneem é fascinante - foi adoptado por um casal de turistas Suíços aos quinze anos, viveu em Genebra daí até aos vinte, quando decidiu deixar para trás uma vida fácil e confortável para voltar para Jaipur. Fundou, há vinte anos, uma organização de apoio a crianças desfavorecidas com a namorada Belga, que hoje em dia tem quatro escolas e um hospital, e da qual se afastou para dar o lugar a alguém com mais influência política. Todo o dinheiro que ganhou foi para  organização, o que o leva a fazer o que faz hoje. Nunca foi à escola e não sabe ler nem escrever. O seu Inglês é excelente, e suponho que o Francês seja melhor. Senhoras e senhores, o Muneem.


Logo de manhã veio buscar-nos ao hotel e levou-nos à Pink City, onde riscámos o City Palace e o Jantar Mantar da lista de sítios a ver. Enquanto que o primeiro era a residência do Maharaja de Jaipur até Indira Gandhi o substituir por um governador eleito democraticamente, o segundo é um conjunto de instrumentos de astronomia desenhados pelo fundador da cidade, com o intuito de desenvolver os seus estudos na matéria. Ambos combinam arquitectura e conhecimentos Hindus e Europeus com a arte e tradição Muçulmana, mas a combinação de conhecimentos e princípios oriundos de todos os cantos da Índia que deu origem a  dezanove instrumentos astronómicos (um dos quais o maior relógio de Sol do Mundo, com uma precisão de dois segundos!) tinha claramente de deixar um geek como eu todo contente…


De seguida fomos ao Amber Palace, o antigo palácio do Maharaj de Amber, a cidade substituída por Jaipur no episódio descrito no início deste post. Tanto o palácio como a muralha que o cerca, aproveitando o terreno acidentado para criar uma barreira quase intransponível para exércitos inimigos, são dos sítios mais incríveis onde já estive. O edifício que servia de corte principal estava, como é hábito em Jaipur, cheio de macacos que eram bastante atrevidos e saltavam à volta das crianças que se aproximavam. Subir ao topo da muralha foi um exercício que me fez suar quase tanto como no forte de Agra, mas que valeu a pena pela vista absolutamente ridícula da área. Foi pena termos de descer antes do pôr do Sol, mas vou tentar rectificar esta falha quando voltar com a minha irmã daqui a quinze dias…


Apesar de tudo, o ponto alto da minha tarde foram os petizes que vieram ter connosco a pedir que lhes tirássemos uma fotografia. Ao início eram três, mas daí a poucos segundos tinha basicamente a família inteira no visor da minha câmara e ao mostrar-lhes o resultado exclamaram “it’s so beautiful!”, mas infelizmente não falavam muito mais Inglês que isso. Se o vosso coração não derreter com a fotografia abaixo é porque é feito de gelo…


O resto da tarde foi passado a jantar e a visitar um alfaiate, onde o Ben tinha encomendado três camisas de linho no dia anterior. Os rapazes que lá trabalhavam viram a minha máquina fotográfica e pediram que lhes tirasse fotografias, primeiro com poses tiradas de um anúncio da Hugo Boss e depois sentados na capota do carro de um deles, o que me fez achar que estava num episódio de uma qualquer série de High School muito fraquinha, mas que teve a sua piada e os deixou todos contentes com material para novas fotos de perfil no WhatsApp, Facebook, Tinder, etc…


O comboio para Jaisalmer promete ser uma experiência. Para começar ficámos nos beliches laterais, que supostamente são ainda mais curtos do que as cabines em que ficámos até agora, onde eu já ficava com os pés de fora. A festa fica completa com as seis catraias que estão a partilhar três camas na cabine ao lado das nossas camas, que prometem passar a noite em claro a cochichar a um metro de um gigante a tentar dormir numa caixa de fósforos. Desejem-me sorte.

Beijos e abraços,
Ginete

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