Wednesday, 27 September 2017

DIa 54 - Delta

Continuando a nossa sequência de dias a acordar a horas ridículas, pouco passava das sete da manhã e já estávamos num autocarro a caminho do delta do rio Mekong. Duas diferenças em relação ao autocarro que nos levou a Bai Tu Long Bay - a viagem foi de hora e meia em vez de cinco e tínhamos nove lugares só para nós os dois, permitindo todo um nível de refastelamento nunca antes visto. Já Ut, o nosso guia, é tão simpático quanto conversador - um ponto positivo para o resto do dia, mas não entre as sete e as oito e meia da manhã, quando me apetecia tanto conversar como arrancar todos os pêlos da minha perna esquerda, um a um, com uma pinça. A paragem numa estação de serviço para o pequeno almoço (café gelado e bolos de uma pastelaria típica que, talvez em parte por estarmos a morrer de fome, nos souberam melhor do que qualquer pequeno-almoço vietnamita até hoje) fez-nos sentir ligeiramente mais humanos.


A chegada ao barco que nos ia levar a conhecer o rio não me deixou boquiaberto. Apesar de bonita, a paisagem que nos rodeava fica aquém das backwaters de Kerala, do delta do rio Tigre na Argentina ou da intersecção entre o rio Trancão e o Tejo - os três outros sítios do género que me vêm à memória. No entanto, passadas algumas horas a observar pessoas a descascar e limpar cocos e a fabricar utensílios a partir do resto da planta (usada para fazer tudo por estes lados, desde vassouras a telhados de casas) fez-nos perceber que mais do que a paisagem, o delta do rio Mekong é um sítio vivo e dinâmico, onde dezoito milhões de Vietnamitas continuam a viver do que o rio lhes dá - desde a pesca a nós, turistas, passando pelos cocos e bananas que crescem abundantemente nas margens.


Ao chegarmos à casa onde ficaremos a dormir devorámos o almoço preparado pela nossa anfitriã e descansámos meia hora (que para mim foram cinco minutos, visto que passei o resto do tempo a ler o artigo da Wikipedia sobre a “Tet Offensive” na guerra do Vietname) antes de explorarmos as redondezas de bicicleta. Antes de pegarmos nas ditas tivemos de apanhar uma boleia de mota e de ferry boat, uma maneira extremamente popular de atravessar os milhares de rios que compõem o delta, onde mais uma vez oportunidades para tirar fotografias de crianças minúsculas em scooters não faltaram.


Desde as centenas de crianças a voltar a casa da escola de bicicleta às pessoas sentadas à beira da estrada, toda a gente nos saudava com um sonoro “Hello!” e um sorriso sincero. Nada do que se passava à nossa volta nos deixava estupefactos, simplesmente olhávamos com curiosidade para o dia-a-dia destas pessoas incrivelmente simpáticas. Igualmente curioso foi ouvir o nosso guia falar de como foi crescer no delta do Mekong, de como os soldados do exército Vietcong usavam templos Budistas como esconderijo e criaram uma rede de túneis para se movimentarem sem serem detectados, ou da religião Tam Giáo, que junta ensinamentos do Budismo e de duas outras religiões chinesas e cujos templos extremamente coloridos se destacam das construções simples e discretas das aldeias.


Após um pôr-do-sol que não consigo descrever com palavras e de (por ficarmos uma hora a tirar fotografias ao mesmo) voltarmos para casa de bicicleta às escuras, fomos ensinados pela nossa anfitriã a fazer Bánh Xèo, as panquecas salgadas típicas do Sul do Vietname, das quais já tínhamos ficado fãs dias antes em Da Nang. Enquanto jantávamos, e depois de se fartar de nos fazer mais panquecas (que não conseguíamos recusar, não por estarmos a ser simpáticos mas por saberem bastante bem), a senhora explicou-nos que o filho vive em Saigão e é casado com uma senhora que, apesar de Doutorada, tem um negócio de venda de leite para bébés (o que, para o Ut, não parecia fazer grande sentido).


Meia dúzia de fotografias dos seus netos e dois dedos de conversa com o Ut, acompanhados por uma lata da excelente cerveja 333, serviram para fechar o dia cedo - seguindo o horário dos locais, amanhã saímos outra vez às seis da manhã para conseguirmos ver o mercado flutuante durante a hora de ponta. Não me lembro da última vez que acordei três dias seguidos antes das seis, mas não posso negar que a paz e sossego deste sítio só me faz querer acordar às seis, sim, mas da tarde.

Beijos e abraços,
Ginete

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