Thursday, 28 September 2017

Dia 56 - Mal

As primeiras horas do dia de hoje foram comparáveis com uma manhã chuvosa em Milton Keynes - depois de vinte minutos à procura do nosso autocarro, cheios de sono e debaixo de uma nostálgica chuvinha molha-parvos, descobrimos que deveríamos ter impresso o nosso visto para o Cambodja dez minutos tarde demais, quando o nosso autocarro já tinha partido. Felizmente os serviços fronteiriços e o senhor da agência que geria o nosso autocarro eram amigos e uma nota de dez dólares resolveu a situação, um preço justo (tanto financeira como eticamente) a pagar para rectificar o nosso acesso de estupidez e não voltarmos recambiados para Saigão.


O resto da viagem passou-se a dormir tanto quanto possível até um dilúvio se abater sobre o nosso autocarro e, devido ao estado de conservação das janelas do mesmo, sobre mim. Felizmente a trovoada já tinha acalmado quando chegámos, o que nos permitiu fazer o check-in, comer qualquer coisa (visto que até às três da tarde tínhamos comido meia dúzia de bolachas Maria e bebido um café) e seguir para o S21, o primeiro de dois sítios documentando a recente história brutal do país, que não poderíamos deixar de visitar na capital.


Com a plena consciência de já ter dito o mesmo sobre o Museu dos Espojos de Guerra em Saigão, o que vimos hoje não se compara a nada que me lembre de ter visto até hoje. A antiga escola secundária, transformada em prisão política pelo Khmer Rouge em 1975, é o sítio mais macabro que já visitei (com a ressalva de não ter visitado assim tantos sítios macabros…). As histórias das vítimas e as condições em que estas viviam, as torturas a que foram submetidas até serem enviadas para os Killing Fields e a maneira como eram executadas ganham toda uma nova dimensão ao percebermos a razão (ou a falta dela) por trás de tais atrocidades.


Pol Pot, o líder do movimento Khmer Rouge, foi um dia passar férias ao campo e observou que as comunidades agrárias funcionavam como um perfeito regime Comunista. Aí decidiu que, em vez de perder tempo a tentar converter os habitantes das cidades aos seus ideais, o país poderia funcionar sem eles. Nessa altura, o regime começou a evacuar as principais cidades do país (sob o pretexto de iminentes bombardeamentos por parte dos Estados Unidos) para zonas rurais, onde eram submetidos a trabalhos forçados e alimentados de forma deficiente. Os ex-habitantes das cidades, também chamados de “Pessoas Novas”, não tinham obviamente grande jeito para o trabalho agrícola e, sem a ajuda das “Pessoas Antigas” (as que sempre viveram da terra), acabaram por não produzir o que deles era esperado. Os que não morreram à fome foram presos, torturados e executados.


As chamadas “elites”, ou seja todas as pessoas com educação, erma consideradas inimigas e portanto presas, torturadas e executadas. O ridículo chegou ao ponto de pessoas que usavam óculos serem perseguidas pura e simplesmente por parecerem inteligentes, independentemente das suas habilitações ou profissões. Grande parte dos membros do próprio partido foram, mais tarde ou mais cedo, presos e também eles executados. Um trio de ocidentais cujo barco acabou em águas controladas pelo Cambodja na altura errada foi capturado, preso e executado por ser considerado um “risco de segurança”, e todos os estrangeiros que não tiveram a sorte de serem evacuados após a tomada do poder por parte do Khmer Rouge sofreram o mesmo destino.


Tudo isto aconteceu nos pouco mais de três anos em que o Khmer Rouge esteve no poder, até o Vietname invadir o Cambodja e empurrar estes senhores com um parafuso a menos para perto da fronteira com a Tailândia. O melhor disto tudo é que, durante os vinte anos que se seguiram à invasão Vietnamita, o Khmer Rouge (em coligação com duas outras forças rebeldes) continuou a ser considerado como o governo legítimo do Cambodja pelas Nações Unidas, recebendo apoio financeiro e militar por parte da China, dos Estados Unidos e do Reino Unido. Isso mesmo - vinte anos depois da descoberta de valas comuns com os restos mortais de milhares ou milhões de “Pessoas Novas”, que não fizeram absolutamente nada para merecerem o destino que tiveram.


Mesmo depois de ouvir relatos de atrocidades cometidas por outros regimes semelhantes, o ridículo das acções do Khmer Rouge deixou-me sobretudo enraivecido. Não percebo como é possível seres humanos agirem como estes senhores, especialmente quando usam uma espécie deturpada de pensamento racional para justificar as suas acções (segundo o director do S21, “mais vale prender alguém que não deve ser preso do que deixar um inimigo escapar”). Não percebo como alguém consegue ser mau o suficiente para achar que o extermínio de dois terços da população do seu país é um preço justo a pagar pela implementação de uma utopia absurda. Como cereja no topo do bolo, não percebo como é que o Ocidente apoiou estes senhores durante mais de vinte anos, mesmo depois de as provas das atrocidades cometidas pelos mesmos serem quase irrefutáveis.


Peço desculpa pela aula de história e subsequente desabafo que acabou por ser este post, mas acredito que uma visita ao S21 deixasse qualquer um em semelhante estado. Amanhã planeamos ir aos Killing Fields por isso, por muito que tente evitar repetir-me, pelo sim pelo não preparem-se para um bocadinho mais do mesmo…

Beijos e abraços,
Ginete

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