Sem pensar muito no assunto, tinha concordado com estes planos no dia anterior, convencido de que o esforço seria recompensado pelo nascer do sol no Angkor Wat. Sentado a olhar para a fotografia acima (e mais de um milhar de outras que tirei durante o dia de hoje) tenho de concordar que foi a decisão certa. No momento em que me encontrava, entre centenas de outras pessoas, a olhar para o reflexo do templo Hindu-Budista numa poça de água de máquina fotográfica em riste, acreditem que chamei muitos nomes feios ao Oun, o nosso pobre guia que, sem ter culpa nenhuma, se tornou no único alvo possível para a minha resmunguice matinal.
As primeiras nove horas do nosso dia foram passadas a ver templos. Ao primeiro estava ainda meio a dormir. Ao terceiro estava decididamente farto de ver templos. Já ao quinto comecei a procurar um sítio alto de onde me pudesse atirar. Apesar de reconhecer a magnificência histórica, a grandeza impressionante e a beleza indiscutível do que vimos hoje, é também inegável que nove horas de templos é um absurdo.
Após o nascer do sol, o Angkor Wat em si poderia ter sido visto em meia hora, já que o interesse diminui à medida que nos aproximamos da torre central (que não nos demos ao trabalho de tentar subir após vermos o tamanho da fila). Apesar de a dimensão e simetria perfeita nos deixar incrédulos sobre como foi possível ao Império Khmer construir o maior monumento religioso do Mundo no século XII, ainda ficámos mais pasmados com a quantidade de gente que nos acompanhou na nossa visita, às cinco da manhã durante a época baixa… A meio de um dia na época alta a experiência só pode ser semelhante à que eu e a minha irmã tivemos no metro de Delhi em hora de ponta.
Depois disto, num momento um tanto ou quanto estranho, o Oun levou-nos a um templo Budista nas redondezas para recebermos a bênção de um monge, da qual retive uma pulseira vermelha e uma valente dor de costas devido à posição estranha em que nos mandaram sentar - não sei se a boa sorte que o senhor me desejou vai compensar o estado miserável das minhas cruzes, mas daqui a umas semanas farei o ponto de situação.
O Ta Prohm, repetidamente descrito como o sítio onde foi filmado o filme Tomb Raider, podia ter ficado para outro dia, assim como o pequeno templo cujo nome não registei por onde passámos a caminho. Apesar de gente a mais e interesse a menos passámos umas boas duas horas às voltas entre árvores enraizadas na estrutura e ruínas das partes do templo que já não estão de pé. Após vinte e sete ângulos da árvore que a Lara Croft supostamente escalou no filme (não me recordo, era muito novo…) e centenas de fotografias medíocres (em grande parte devido ao estado vegetativo do meu cérebro, mas também por falta de coisas e espaço para fotografar) sentámos-nos a beber o nosso primeiro Coconut Coffee desde os longínquos tempos de Hoi An, que me soube tão bem como o Bacalhau Espiritual da minha mãezinha (a distinção máxima dos Prémios Culinários João Ginete) na noite de Natal.
Ironicamente, os dois últimos templos foram os mais engraçados, mas quando lá chegámos o meu apetite já há muito se tinha esgotado. O primeiro, de nome Ta Nei, situava-se no fim de uma estrada de terra batida, em tão mau estado que o nosso condutor de Tuk Tuk (que aqui são basicamente motas com atrelados) quase foi ao chão, obrigando-nos a fazer as últimas centenas de metros a pé. Por sermos os únicos visitantes e por estar escondido no meio da selva o sítio até teve a sua piada, apesar de o interior estar completamente em ruínas e o exterior para lá caminhar. O templo Bayon completou o quinteto e foi porventura o mais interessante, com as numerosas estátuas de seis cabeças a criarem um efeito que nos faz sentir rodeados de rostos de pedra ao andarmos pelo centro da estrutura. Ainda assim, o fim da visita foi um alívio por estarmos a morrer de fome e de sono, e a nossa chegada a casa mais de duas horas depois do previsto só nos deixou outras duas horas para almoço (num café-lavandaria com muita piada ao lado no nosso hotel) e para cairmos para o lado no nosso artificialmente mas agradavelmente fresco quarto de hotel.
Revitalizados por meia hora de sono e um duche de água fria, encontrámos um Oun cheio de energia à nossa espera na recepção do hotel, pronto para a segunda parte do nosso programa. A primeira paragem foi uma visita ao mercado local, onde tudo desde carne, peixe e legumes frescos até formigas trituradas (aparentemente uma especiaria muito apreciada por estes lados) se encontrava à venda, muitas vezes com a oferta de um brinde na forma de baratas ou enxames de moscas. A simpatia das pessoas, com as quais só conseguíamos comunicar através de sorrisos, chegou e sobrou para justificar a visita, por vezes marcada por cheiros pungentes e uma sobrecarga dos sentidos que me fez lembrar a parte Indiana da nossa viagem.
O resto da tarde foi passado a passear por uma comunidade rural nos arredores de Siem Reap, onde mais uma vez a doçura dos locais nos deixou desarmados. O ponto alto chegou quando o Oun fez dois amigos - uma rapariga de dez anos (que jurava que a mãe lhe tinha dito ter dezasseis!) e o irmão de cinco, que vagueava meio perdido enquanto a irmã passeava uma vaca dez vezes maior do que ela.
A scooter que nos perseguiu durante quase uma hora, na qual três bebés sorriam e gritavam “helloooo” cada vez que nos cruzávamos, e o próprio Oun, que bebeu um par de cervejas connosco enquanto tirávamos fotografias ao pôr-do-sol e conversávamos sobre as amizades que tinha feito enquanto guia e como está a estudar Literatura Inglesa para ser professor do Secundário mas quer ser fotógrafo nas horas vagas, garantiram que voltaremos a casa com uma excelente opinião do povo do Cambodja. Assim como no Sri Lanka, para um povo que recentemente viveu um Genocídio e décadas de Guerra Civil é inspirador ver a facilidade com que um sorriso sincero aparece nas caras com que nos cruzamos.
Uma torre de cerveja na “Khmer Pub Street” (a versão local da famosa rua repleta de bares para turistas no centro de Siem Reap) foi a nossa gorjeta para o Oun, que respondeu à pergunta sobre quem eram as raparigas que faziam fila à entrada do bar e se puseram de pé ao chegarmos da maneira mais inocente de sempre - “falam com clientes se estes lhes comprarem bebidas e às vezes vão-se embora com eles”.
Depois de um jantar rápido seguimos para a Pub Street ocidental, onde acabámos num bar em que 80% das raparigas estavam presentes por motivos profissionais, sendo óbvio que o Cambodja está a fazer um esforço para se apropriar do “market share” da Tailândia nessa lucrativa indústria. Ainda assim, uma noite a dançar ao som de música má e a beber bebidas ainda piores era a única maneira de nos despedirmos do Cambodja, do qual saímos com um sentimento de missão cumprida e provavelmente sem grande pressa para voltar - um feito notável, visto que só cá estivemos três dias...
Beijos e abraços,
Ginete











Beauty make beautiful pictures easy
ReplyDeleteOf course photographer makes the difference
Miss U