O calor que sentimos no curto caminho até à sala de pequeno almoço fez-nos temer o pior de um dia cuja agenda era formada maioritariamente por templos, cujas regras incluem calças compridas e pés descalços. Enquanto que as calças compridas foram, surpreendentemente, bastante suportáveis, as plantas dos meus pobres pés nunca mais serão as mesmas depois de horas a andar sobre escaldantes telhas escuras.
Os primeiros três pagodes que visitámos foram o Ananda, com a sua cúpula dourada e quatro Budas igualmente resplandecentes, o That Bin Nyu, recentemente danificado por um terramoto e portanto em estado decididamente frágil, e o Shwe Gu Gyi, cujo primeiro andar oferece uma vista de 360 graus das centenas de pequenas estupas que o rodeiam. Bagan é o destino perfeito por isto - o cenário incrivelmente pitoresco, com campos verdes incrustados de pagodes até perder de vista, mas com tudo a menos de meia hora de distância usando convenientes scooters eléctricas.
Para além disto, e apesar de haver claramente alguns turistas (maioritariamente chineses) as multidões são (com uma excepção, à qual chegaremos) perfeitamente suportáveis. Os mianmarenses continuam a merecer um lugar nos nossos corações, desde o senhor que me ofereceu seis euros por seis mil kyats (um péssimo negócio para ele) por não poder gastar Euros onde vive (recusei por não precisar de Euros, mas disse-lhe para pedir mais por eles!) até à miudinha empreendedora que nos vendeu quatro desenhos feitos à mão, que era tão fofinha e despachada que não conseguimos dizer que não…
Após uma visita rápida à Bu Paya, uma estupa simples à beira do rio, e um almoço rápido, num restaurante que parecia claramente montado nas traseiras da casa dos donos mas que nos forneceu um excelente arroz de côco e refrescantes sumos de lima, seguimos até New Bagan, onde visitámos a Lanka Nanda. Ficámos um bocado desapontados, já que o enorme monumento dourado que vimos ao pesquisar na internet se encontrava quase inteiramente coberto por andaimes de bambu, tirando-lhe grande parte da piada.
O pôr-do-sol no pagode Shwesandaw teve altos e baixos - por um lado a vista era perfeita, com as centenas de mini-templos que o rodeavam a servirem como pano de fundo a uma bela sucessão de cores, com o lado oposto ao do sol decorado por uma enorme lua cheia; por outro todos os três andares do pagode piramidal estavam tão cheios de gente que quando chegámos era impossível respirar. De longe o sítio mais concorrido que vimos até hoje, começou felizmente a esvaziar depois de o sol se pôr (e portanto antes das cores atingirem o seu ponto mais impressionante), com apenas algumas dezenas de pessoas presentes quando os guardas nos começaram a mostrar o caminho de saída ao som de apitos e instruções de que queriam ir para casa.
Quando estávamos a calçar os sapatos para irmos embora um dos vendedores avisou-nos que, como era lua cheia, o templo seria decorado com velas daí a meia hora. Como ainda não tinhamos muita fome decidimos ficar mais algum tempo e não nos arrependemos - a combinação das velas, do fogo de artifício atirado por miúdos, das estrelas e da lua cheia foi a maneira perfeita de acabar o nosso único dia neste sítio igualmente perfeito.
Menos perfeita foi a surpresa que encontrámos ao chegar às nossas scooters. Enquanto que a minha estava intacta mas tinha sido empurrada para dentro de um arbusto (suponho que por um dos muitos carros que participou nos enormes engarrafamentos depois do pôr-do-sol), a da Renu recusava-se a ligar, com a chave a não girar na ignição. Montados na minha scooter, fomos jantar a um excelente restaurante vegetariano antes de voltarmos à loja onde tínhamos alugado a scooter, onde os dois miúdos (sem mais de dezasseis anos e, segundo a Renu, bastante queridos) que tomavam conta da loja simpaticamente nos disseram que não havia problema, que iam buscar a scooter e que não nos preocupássemos. Ainda que seja possível que isto lhes aconteça todos os dias, era bom que alugueres fossem assim tão simples em todo o lado…
Beijos e abraços,
Ginete






O Sagrado é Belo
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