O relógio biológico do Pete aterrou finalmente no Japão, o que nos levou a sair de casa apenas ligeiramente mais cedo do que no dia anterior, mas ainda assim determinados a maximizar o nosso último dia em Kyoto. O que era para ser uma breve paragem na impressionante estação central de comboios acabou por demorar o seu tempo, visto que a dimensão do edifício e as linhas aparentemente infinitas nos deixaram especados a olhar para o tecto durante uma boa meia hora. Após um pequeno almoço rápido seguimos para o comboio que nos levaria até à estação de Arashiyama.
Seguindo as outras pessoas com ar de turista facilmente caminhámos da estação de Arashiyama à floresta de bambu, um sítio único onde apesar dos inúmeros visitantes é impossível não nos sentirmos imersos num mar de longos e delgados troncos verdes. A chuva que nos acompanhava desde manhã, apesar de persistente e irritante, não nos fez arrepender da viagem até aos arredores de Kyoto mas deixou-me decididamente encharcado da cabeça aos pés. Apesar disso nunca tive o mínimo de vontade de me vir embora, já que o curto passeio pela floresta foi a maneira perfeita de desenjoar da montanha de templos que Kyoto nos tinha oferecido no dia anterior.
No fim da floresta, o guia Lonely Planet do Pete (ferramenta essencial para o planeamento desta parte da viagem até agora) recomendava a visita ao Okochi Sanso, a antiga casa de um famoso actor japonês do início do século XX, que fez do desenho e construção destes jardins uma ambição de vida após sobreviver ao grande terramoto de Tóquio, em 1923. O resultado é provavelmente o sítio mais tradicionalmente japonês que vimos até agora, uma espécie de versão sobrenatural dos jardins da Gulbenkian, rodeados por montanhas e templos, cuja vista ocasionalmente nos deixava ainda mais impressionados do que já estávamos. No fim da visita fomos até à sala de chá, onde nos foi servido chá verde (que mais parecia sopa de espinafres) e um bolo que nenhum de nós percebeu se tínhamos desembrulhado como deve ser ou não. Foi aí que conhecemos a Michelle, uma americana a viajar sozinha que nos acompanharia durante o resto do dia.
Depois de regressarmos à estação de comboio pela floresta de bambu (para nos despedirmos convenientemente) fomos até ao Kinkaku-ji, um templo Zen dourado construído à beira de um lago e reconstruído em 1955 depois de um jovem monge esquizofrénico lhe ter pegado fogo cinco anos antes por estar obcecado com o mesmo. Cheios de fome e sem querer sair de Kyoto sem experimentarmos tempura, supostamente a especialidade local, voltámos para o centro de Kyoto e acabámos num restaurante que tinha pouco ar de ser frequentado por clientes envergando uma camisola encharcada da Selecção Nacional de futebol. Depois de nos assustarmos com os preços do menu de jantar a senhora incrivelmente simpática deixou-nos escolher opções do menu de almoço, que por alguma razão era bastante mais razoável. Não sendo a refeição mais volumosa que tivemos até agora, foi sem dúvida agradável e a simpatia de toda a gente que nos recebeu chegou e sobrou para voltarmos ao hostel satisfeitos.
Uma sesta e uma sessão de lavandaria fez-nos chegar atrasados ao Bar Ki, onde tínhamos combinado encontrar-nos com a Michelle para a nossa primeira sessão de Karaoke no Japão. Ao chegarmos, deparamo-nos com um pequeno bar gerido por um Australiano e um Canadiano, cujos clientes formavam um grupo engraçado que misturava Japoneses, Suíços e Americanos à lista de nacionalidades. Daí a pouco tempo estávamos no terceiro andar a “cantar” tudo e mais alguma coisa, desde Beatles a Bieber, com o ponto alto a ser a versão de “Hit Me Baby One More Time” com que o Michael (um arquitecto americano que vive no Alaska) nos prendou, que poderia ser facilmente confundida com uma cover do mesmo tema por uma banda de death metal.
A noite não acabou aí, com o bar inteiro a transferir a festa para um “standing bar” onde recrutámos mais companhia antes de irmos para o World Kyoto, uma discoteca surpreendentemente concorrida para uma Segunda-Feira à noite onde fomos recebidos pelo omnipresente Despacito, que miraculosamente tinha conseguido evitar desde o Cambodja. Tenho a dizer que tinha tantas saudades da voz electronicamente modificada do Luis Fonsi como dos mosquitos a devorar-me as canelas ao pôr-do-sol, e tenho que agradecer ao DJ deste estabelecimento por a ter re-introduzido na minha vida.
Beijos e abraços,
Ginete





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