Thursday, 19 October 2017

Dia 76 - Arte

Naoshima tem, desde o início dos anos 80, sofrido uma transformação drástica de pequena e pacata ilha com parcos três milhares de habitantes num gigante museu de arte contemporânea. Desde instalações em casas com mais de duzentos anos até museus construídos de raíz, passando por inúmeras esculturas espalhadas pelas ruas, a ilha vive do seu estatuto de pólo artístico do Japão, o que a torna num sítio singular na nossa volta ao país do sol nascente.


O nosso dia começou com dois pequenos almoços, ambos deveras pequenos - um no nosso Airbnb e outro no único café aberto às 10 da manhã na ilha, onde já na noite anterior tínhamos reparado que tudo abre tarde e fecha cedo. Honmura, a parte da ilha onde o Yoshi nos deixou de manhã, foi o local escolhido para o Art House Project, que desde 1988 convida artistas a tornarem casas vazias espalhadas pela vila em obras de arte. A mais interessante que visitámos, de nome Minamidera, é uma experiência desenhada pelo artista James Turrell que convida os visitantes a entrar numa sala imersa numa quase total escuridão e a ficar sentados durante dez minutos. Lentamente, à medida que  os olhos se vão habituando à ausência de luz, um enorme rectângulo torna-se visível ao fundo da sala, e eventualmente é possível distinguir formas por toda a sala e as silhuetas dos outros visitantes, ao ponto de todos poderem caminhar pela mesma sem qualquer problema.


As restantes seis instalações, ainda que não tão interessantes como Minamidera, foram uma maneira agradável de passar a manhã antes de pararmos para tomar um café num sítio peculiar, que nos pareceu ser uma espécie de parque de campismo interior, onde pessoas podem erguer tendas e dormir em sacos-cama debaixo do tecto de sala ao lado do café. Depois de alugarmos duas bicicletas seguimos para o Museu Benesse, parte de um complexo com um parque e uma praia repletos de esculturas e um hotel com ar de ser bastante menos em conta do que o nosso Airbnb. A obra que mais nos cativou no museu é um conjunto de bandeiras de variados países pintadas em rectângulos de areia interligados, que aquando da sua criação alojaram uma colónia de formigas que ao longo do tempo foram escavando caminhos através das mesmas. O resultado são bandeiras aparentemente fracturadas, algumas das quais ironicamente de países que já não existem.


Outra obra interessante é uma caixa aberta, cuja tampa tem inscritas as palavras “Little Boy” e que revela dois panos com o Artigo 9 da constituição do Japão, escrita pelos Estados Unidos após a guerra enquanto estes detinham o controlo administrativo do país. O artigo em causa renuncia à guerra como instrumento para resolver disputas territoriais e compromete o país a não formar quaisquer forças armadas ou a adquirir qualquer potencial bélico - o que, depois de passar umas semanas no Vietname e no Cambodja, me faz ficar sem saber se me devo rir ou chorar perante tamanha hipocrisia.


Visto que a chuva prevista para o final da tarde chegou adiantada decidimos atravessar a parte mais montanhosa da ilha e voltar ao porto onde tínhamos jantado no dia anterior. Recomendado pela Simran, a nossa companheira de festa em Tokyo, decidimos experimentar os Onsen - uma tradição milenar que junta pessoas do mesmo género em tanques de água bastante quente como Deus as trouxe ao Mundo, de modo a estabelecer uma igualdade social temporária. Apesar de não ter percebido inicialmente que fatos de banho eram proibidos, quando recebi tal informação era já tarde demais para voltar atrás. Pela positiva é refrescante ver que parte do ritual envolve que toda a gente se lave religiosamente antes de entrar nos banhos públicos. Pela negativa, é um calor que não se pode. O único sentimento positivo que retirei da experiência foi à saída, quando deixei de estar no limiar da hipertermia, o que torna a experiência tão agradável como bater com a cabeça numa parede de tijolos só pelo prazer de parar de bater com a cabeça numa parede de tijolos.


Deixamos Naoshima com o sentimento de ter ficado muito por ver, não só na ilha em si como nas que a rodeiam - Teshima, em particular, parece um sítio fascinante com o seu Museu composto por exactamente uma (enorme) obra de arte. De qualquer das maneiras foi uma boa escolha para ocupar os dois dias livres que tínhamos nos nossos planos. Ao jantar, que cozinhámos em conjunto com o Yoshi e com a família espanhola, a filha de cinco anos da mesma entreteve a sala inteira com uma sequência interminável de estórias, a maioria das quais não muito lisonjeiras para com o pai. Um casal de argentinos substituiu o britânico da noite anterior e todos partilhámos o jantar delicioso enquanto nos ríamos da Aruna (que fala quatro línguas, uma delas inventada pela própria) a gozar com o pai pela maneira como este diz a palavra “scribblings”… Miúdos que praticamente nascem a saber falar três línguas sempre me deixaram com uma pequena dose de inveja, mas os que para além disso têm o dom de fazer uma sala cheia de adultos rir durante hora e meia deixam-me a ponderar o que é que tenho andado a fazer nos últimos vinte e oito anos…

Beijos e abraços,
Ginete

No comments:

Post a Comment