Monday, 23 October 2017

Dia 80 - Tufão

As duas opções para horário de pequeno almoço oferecidas pela nossa residência (sete ou sete e meia da manhã...) levaram-nos a acordar um par de horas mais cedo do que gostaríamos, tanto que depois de tomarmos o dito pequeno almoço (que em pouco variava do jantar da noite anterior) dormimos uma sesta até sermos postos fora, como já vem sendo hábito neste país de madrugadores. Lá fora, o milagre por que esperávamos não se concretizou, com a chuva forte a manter-se durante a noite e a elevar o caudal do riacho que corre pela vila de Yunomine a níveis raros, levando várias pessoas a parar para tirar fotografias ao mesmo.


Depois de cancelarmos o alojamento para os dias seguintes, efectivamente desistindo dos nossos planos devido ao tufão que se aproxima rapidamente de nós, decidimos ainda assim percorrer parte do caminho de Kumano Kodo e ir visitar o templo se Hongu antes de apanharmos o autocarro de volta a Tanabe, onde planeávamos voltar de comboio para Osaka. Os três quilómetros de caminho que fizemos, de guarda-chuva na mão e debaixo de chuva intensa mas tolerável, chegaram e sobraram para ficarmos com bastante pena da nossa falta de sorte com o tempo. O caminho verde, em grande parte já transformado num riacho, deixava-nos de boca aberta cada vez que parávamos para respirar e olhar à nossa volta. Pelo caminho encontrámos caranguejos cor de laranja e um grande sapo amarelo, o que nos fez pensar que tipo de animais encontraríamos em dois dias e 30 quilómetros de caminho, e a certa altura encontrámos um simpático casal inglês que caminhava na direcção oposta e planeava pernoitar em Yunomine. Depois de nos rirmos por estarmos todos de guarda-chuva em riste e de trocarmos impressões sobre a nossa viagem até agora, despedimos-nos sabendo que estávamos perto do fim do caminho.


À medida que a chuva se intensificava fomos lentamente aceitando que a nossa decisão tinha sido a correcta e o que sentimos ao nos sentarmos num simpático café vegan para almoçar (coisa que não teríamos podido fazer a meio do trilho...) reforçou essa realidade. Em Hongu vimos rapidamente o maior Tori do Japão antes de nos secarmos e ingerirmos qualquer coisa quente no tal café enquanto esperávamos pelo nosso autocarro, tendo acabado a rir com a dona do estabelecimento por o Pete ter encontrado um brinquedo igual a um que tinha tido em criança - um instrumento que parece uma bomba de encher pneus de bicicleta mas que, ao se olhar por um orifício numa das extremidades, funciona como um caleidoscópio. À chegada a Tanabe, no entanto, rapidamente percebemos que os comboios já há muito tinham sido cancelados e que os autocarros estavam cheios até ao dia seguinte. Com a chuva a intensificar-se não nos restou grande alternativa senão encontrarmos sítio para dormir e ocupação para as próximas vinte e quatro horas.


Achámos alojamento logo ao lado da estação, mais uma vez num quarto tradicional japonês com o chão coberto em tapetes tatami e com pouco mais que um cobertor como colchão - o que a mim não me faz diferença mas que o Pete não aprecia. Uma vez que os restaurantes só abriam por volta das 5 da tarde passámos um par de horas a ver o primeiro volume do Kill Bill que, por razões óbvias, andava com vontade de ver desde que cheguei ao Japão. Depois de vermos a Uma Thurman a despachar oitenta e oito Yakuza em cinco minutos seguimos para o Kanteki, um Yakitori com excelentes credenciais internéticas que nos serviu tempura, sashimi e Kirin que nos deixaram mais do que satisfeitos, enquanto que a conversa com o chef Keiji nos entreteve durante várias horas. Quando chegou a altura de pagar, no entanto, percebemos que não tínhamos dinheiro suficiente e que os senhores não aceitavam cartão, pelo que me aventurei pelas ruas de Tanabe (por esta altura em condições bastante ciclónicas) à procura de um multibanco.


Uma hora a andar debaixo de um dilúvio e com rajadas de vento que rapidamente destruiram o meu guarda-chuva não chegaram para encontrar uma máquina que aceitasse um dos meus cartões, pelo que voltei ao restaurante de mãos a abanar para encontrar o Pete a conversar com dois rapazes que estavam sentados ao nosso lado. Nesta altura, algo de estranho aconteceu - o Keiji (que estava a trabalhar à minha frente, já que estávamos sentados no bar) discretamente deixou uma nota de 10000 yen em cima do bar e fez-me sinal para a usar para pagar o jantar - para pôr isto em perspectiva, 10000 yen são 75 Euros… Se bem que ao início nos custou a aceitar tamanha generosidade acabámos por não ter alternativa, tanto por o Keiji insistir e nos pedir para não voltarmos no próximo dia para acertarmos contas como pelo facto de o dono (sogro do Keiji) já estar a telefonar ao senhor da pensão onde estávamos hospedados, supostamente para que ele nos viesse ajudar. No final de contas acabámos a beber sake e shochu (descrito como “tequila japonesa”) com os rapazes com quem o Pete tinha metido conversa, e comendo o que nos ia aparecendo à frente, até um dos ditos mostrar sinais de ter bebido demais e de nos fazer sinal para irmos com ele para fora do restaurante. Enquanto que o Keiji pensava que a ideia dele era andar à chapada connosco, a nós pareceu-nos que o senhor realmente sofria de sentimentos reprimidos, ao ponto de me dar três gentis socos nos países baixos quando me apanhou a tentar ir à casa se banho…

Com pagamentos despachados e brigas evitadas acabámos por voltar à nossa pousada, já sem chuva mas com uma ventania desgraçada, a pensar em maneiras de recompensar o Keiji pela sua incrível amabilidade, o que obviamente teria de esperar pelo dia seguinte. Se quando chegámos me tivessem dito que as nossas primeiras oito horas em Tanabe iam ter tanto para contar, garanto-vos que não tinha acreditado…

Beijos e abraços,
Ginete

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