Wednesday, 30 August 2017

Dia 26 - Monção

Quando ontem disse que tinha estado a chover desde a noite anterior, a minha noção de chuva era bastante diferente da actual. Devo portanto um pedido de desculpas aos leitores - nos dois últimos dias respingou um bocadinho. Hoje choveu.


As piores monções em Mumbai desde 2005 (onde morreram mais de quinhentas pessoas) tiveram um começo não muito diferente do dia anterior. Enquanto tomávamos o pequeno almoço eu estava sentado de costas para a janela, e cada vez que me virava a intensidade da chuva era maior. A certo ponto abrandou, e aí aventuramo-nos a fomos até à Gateway of India tentar apanhar o ferry para Elephanta, uma ilha com grutas esculpidas algures entre o século 5 e 8 depois de Cristo, mas fomos informados que esta se encontrava fechada devido ao mau tempo. Como alternativa apanhámos um Uber até à Mani Bhavan, casa onde Mahatma Gandhi ficava nas suas estadias em Mumbai e onde se deram vários momentos marcantes da história da independência da Índia, como
a sua prisão em 1932. Apesar de ter sido uma paragem de recurso, a visita acabou por ser interessante e ficámos a conhecer um pouco mais da vida de alguém que, sem nunca atirar sequer uma pedra, conseguiu mudar o Mundo.


Só à saída nos apercebemos da dimensão do problema lá fora, quando tentámos apanhar um táxi para o hotel e nenhum parecia com grande vontade de nos levar. Depois de esperarmos vinte minutos por um Uber lá nos pusemos a caminho, que em condições normais teria demorado pouco mais de vinte minutos. Depois de andarmos às voltas por ruas completamente alagadas e outras que seriam melhor descritas como pequenos lagos, ficámos cerca de meia hora presos num engarrafamento na direcção oposta à do nosso hotel. Não sei muito bem como é que o senhor acabou naquela situação, mas depois de fazer toda uma inversão de marcha a situação não melhorou. Numa hora andámos pouco mais de um quilómetro, e acabámos por acabar o caminho a pé depois de estarmos meia hora parados exactamente no mesmo sítio. Do condutor do nosso Uber não há notícias, mas se fosse forçado a especular diria que ainda deve estar no sítio onde nos deixou.


À falta de experiências interessantes para relatar, creio que é altura de dedicar algumas linhas a um fenómeno que temos vindo a observar por estes lados - o “sim” Indiano. Ora o “sim” Indiano é a maneira como os locais dizem que sim com a cabeça, que por alguma razão que escapa a toda a gente com quem já falei sobre isto (desde historiadores a antropólogos) é diferente da do resto do Mundo. Enquanto que todos os povos que conheço usam um simples movimento vertical da cabeça para dizer que sim, o “sim” Indiano é mais ou menos assim:


Pois. A primeira vez que alguém utilizou este gesto na minha presença, pus duas hipóteses - a de a pessoa estar a dizer “talvez” ou “nem por isso”. Nunca me passou pela cabeça que aquilo fosse um “sim” até pedir à senhora que clarificasse. Até hoje, depois de três semanas disto, tenho dificuldades em perceber se as pessoas estão a dizer sim ou não, uma vez que grande parte das pessoas nem faz o gesto completo (porque obviamente dá muito trabalho). Fiquem avisados, caros leitores - não sei quantas guerras já principiaram por Indianos e estrangeiros confundirem o “sim” com o “não” ou o “talvez”, mas pelo sim pelo não convém confirmar antes de tomarem decisões importantes. Depois não digam que não foram avisados.

Beijos e abraços,
Ginete

2 comments:

  1. Entretanto, a Ana está óptima. Parabéns à artista! 😂

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