Vou ser sincero - houve vários momentos nesta viajem em que me senti bastante nojento. Varanasi, onde o calor insuportável se juntava ao chão coberto de fezes de vaca, ou em Singapura, onde a humidade de noventa por cento nos fazia a todos suar como se não houvesse amanhã durante o dia inteiro, foram tempos difíceis, mas nunca tão difíceis como o dia de hoje. Depois de um banho de balde no barco ontem à hora de almoço, sem o qual estaria coberto em sal depois do mergulho na praia deserta que mencionei no post de ontem, comecei o dia com a perfeita consciência de que não voltaria a tomar banho até chegarmos a Hoi An, ao fim da tarde.
Na verdade comecei o dia cerca de cinco minutos antes de o comboio chegar a Hué, quando o Ben me acordou a dizer que estávamos quase no nosso destino. Tive tempo para fazer as malas e sair, e só na estação consegui lavar a cara e os dentes para me sentir ligeiramente mais humano. O passe seguinte foi um excelente pequeno almoço num restaurante Francês, que por estarmos ainda meio atarantados só descobrimos à segunda tentativa - a minha baguette de queijo e fiambre veio com batatas fritas, o que às dez da manhã foi um pouco estranho mas a fome era tanta que não protestei muito.
A Cidade Imperial de Hué, construída pela Dinastia de Nguyen no século XIX para servir de capital do sul do Vietname, ocupou-nos a manhã inteira com uma miríade de palácios, templos e jardins ocupando território suficiente para precisarmos constantemente do Google Maps para saber onde estávamos. Após ser inicialmente poupada aos bombardeamentos Americanos durante a guerra, a intensificação dos combates de rua levou a que grande parte das estruturas da cidade fossem destruídas, deixando apenas 10 dos 160 edifícios originais intactos. Ainda assim, o que ficou de pé chegou para justificar as horas que passámos debaixo do sol, a adicionar mais suor ao nosso já problemático estado de asseio.
A visita ao túmulo do Imperador Minh Mang foi ligeiramente afectada pela chuva, mas ainda assim conseguimos apreciar a perfeita integração da linha de templos com a paisagem envolvente, que fez com que à chegada ao túmulo em si nos tenhamos perguntado se era mesmo ali o fim da linha. A grandiosidade do monumento está no que o rodeia, o que em comparação com sítios como o Taj Mahal ou o Túmulo de Humayun torna a experiência menos arrebatadora mas muito mais tranquila, o que para o local de descanso de um Imperador talvez faça sentido.
A viagem de carro até Hoi An foi mais trabalhosa do que estávamos à espera, uma vez que tivemos de convencer o condutor a subir as montanhas do Hai Van Pass em vez de ir pelo túnel, que apesar de ser mais rápido tira toda a piada ao percurso entre as duas cidades. Depois de alongadas discussões, através do Google Translate e de um telefonema com o chefe que nos tinha vendido o caminho pelas montanhas, o rapaz lá nos levou para onde queríamos, mesmo a tempo do pôr-do-sol. O resto do caminho não revelou o nevoeiro de que o rapaz estava com medo ou as estradas perigosas sobre as quais tínhamos lido na internet. Sendo verdade que a condução no Vietname não é tão civilizada como na Europa, é uma brincadeira comparada com a da Índia.
Depois de jantarmos numa excelente casa de hambúrgueres (apesar de ainda não estarmos fartos de comida vietnamita, a reputação do Jim’s Snackbar era boa demais para não o experimentarmos) fomos até ao centro de Hoi An, onde os famosos mercados nocturnos criam um ambiente simpático à beira do rio, projectando luzes na água até estas se apagarem, às dez da noite.
Depois de nos sentarmos num bar, ao qual inicialmente não achámos grande piada, descobrimos que o sítio ao lado tinha uma empregada com sérios problemas mentais, documentados no Google por várias pessoas com relatos de murros, pontapés e ataques de ácido (!) para com clientes. Apesar do dito bar, de nome Tiger Tiger, estar bastante concorrido, acabámos num sítio mais tranquilo com música ao vivo a beber tranquilamente uma cerveja. Depois da experiência de Hanoi achámos melhor guardarmo-nos para Saigão, sob pena de voltarmos a casa com uma cara diferente…
Beijos e abraços,
Ginete






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