Sunday, 8 October 2017

Dia 64 - Lago

Tudo o que rodeia o lago Inle sofre de uma mais-que-ligeira inflação - uma garrafa de água à beira da estrada, que em Mandalay custa entre duzentos e trezentos Kyats, aqui custa quatrocentos. O nosso hotel, por muito idílico que seja, foi mais caro por uma noite do que o anterior tinha sido por duas. Claramente a zona mais turística por onde passámos no Myanmar, é um dos casos em que a popularidade não vem por acaso - Inle é um dos sítios mais especiais por onde passei até agora.


O dia começou cedo, visto que as cortinas transparentes e as janelas altas do nosso quarto não nos deixaram dormir até tarde. Depois de um pequeno almoço agradável fomos dar uma volta de barco pelo lago, onde começámos por ver pescadores fazer o tradicional malabarismo de remar com uma perna enquanto se balançam nos seus barcos com a outra, deixando as mãos livres para pescarem à rede. A destreza necessária para não acabarem a dar um mergulho no lago já é muita, mas a naturalidade com que eles se equilibram na ponta das suas embarcações é impressionante.


Com a chuva sempre à espreita seguimos pelas aldeias flutuantes onde indústrias de tecido, ourivesaria e carpintaria servem a população que lá reside e geram interesse para os turistas como nós que por lá passam. Decidimos parar numa fábrica de barcos, onde as embarcações a motor que circulam pelo lago (de 10 a 15 metros de comprimento e meio metro de envergadura, tornando-as bastante sensíveis a qualquer movimento lateral dos passageiros) são feitos à mão e re-impermeabilizados todos os anos.


Seguiram-se dois locais religiosos, o primeiro o Pagode de Phaung Daw Oo que apesar de não ser particularmente vistoso é sem dúvida autêntico, com dezenas de homens a empurrarem-se numa plataforma para poderem venerar a figura de Buda (acto proibido às mulheres, que se limitavam a rezar no chão). O mercado à volta do templo era igualmente engraçado, com birmaneses de todas as idades a vender variados bens, desde bijutaria e roupa até milkshakes e água de coco.


A paragem final do nosso passeio foi a aldeia de Inn Dein, que tem como principal ponto de interesse um templo (Budista, caso houvesse dúvidas) rodeado por milhares de estupas funerárias em diversos estados de conservação. Enquanto que as mais antigas se encontram em ruínas, outras foram erguidas há pouco mais de um par de anos e mantém-se resplandecentes. Por se situar no topo de um monte, o caminho até ao templo (ladeado de lojas de souvenirs, com minhas favoritas vendendo marionetas bastante assustadoras) é longo e cansativo mas a vista faz com que o mesmo valha decididamente a pena, com as montanhas escondidas atrás o manto descendente de templos pontiagudos a formar uma imagem única.


O regresso ao hotel ofereceu-nos mais uns pingos de chuva mas lá nos pusemos a caminho do nosso destino mais ou menos à hora marcada. No caminho parámos no restaurante onde almoçámos ontem para pagar o que devíamos, noutro restaurante para almoço e nas grutas de Htet Eain Gu, um templo Budista que consiste em centenas de figuras de Buda espalhadas pelas cavidades de uma gruta natural. Enquanto que a Renu se recusou a descalçar os sapatos (como era suposto) eu decidi ser respeitoso e rapidamente me arrependi, já que o chão molhado e lamacento não só deixou os meus pés castanhos como quase me fez estatelar-me no chão meia dúzia de vezes.


Às grutas em si achei bastante piada, com a combinação das estátuas e das formas naturais das paredes a formarem um ambiente ligeiramente assustador, já que me sentia rodeado de Budas para onde quer que olhasse. Já a Renu acha que os Budas foram postos na gruta para atrair turistas (eu sempre fui um bocado naïve nestas coisas…) mas foi uma excelente assistente ao posicionar com grande destreza a lanterna do seu telefone de modo a permitir-me tirar uma ou duas fotografias quase decentes…


O nosso dia acabou nas primeiras vinhas do Myanmar, onde jantámos e provámos o vinho tinto produzido no sopé das montanhas que rodeiam a cidade de Taunggy depois de fazermos check-in naquele que é o hotel mais simpático de que me lembro. Infelizmente é também no meio do nada, perto da localidade de Shwenyaung (não confundir com Nyaungshwe, a meia hora de distância…) onde amanhã apanharemos o tal comboio lento às oito da manhã. Eu estou expectante pela viagem épica de onze horas que nos espera. A Renu está… menos.

Beijos e abraços,
Ginete

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