Tuesday, 10 October 2017

Dia 68 - Hiperactivo

O despertador, que me acordou violentamente às três da manhã, quase não chegou para me fazer chegar a horas ao check-in. Para começar, demorei dez minutos a perceber como se saía do condomínio da Sally, cujo elevador tinha indicações detalhadas sobre que se passava em cada andar (piscina, jardim com vista panorâmica, etc.) mas não se dava ao trabalho de dizer onde era o raio da saída - eu sei que o primeiro andar é normalmente uma boa aposta, e neste caso era a correcta, mas quando as portas se abriam o primeiro, o segundo e o quadragésimo andares eram, à primeira vista, idênticos… Quando finalmente cheguei ao meu Uber  parámos para ir buscar uma senhora fora do caminho, mas eventualmente o senhor entrou em modo de qualificação e chegámos ao aeroporto em tempo recorde.


O voo da ANA fez-se sem grandes percalços e cheguei à capital japonesa dez minutos antes do previsto. Depois de uma conversa engraçada com o senhor da alfândega (que emitia sons evidenciando diversos graus de surpresa ao lhe responder de onde era, onde vivia, onde tinha estado antes e quem estava a viajar comigo) e de arranjar um cartão SIM (que me custou meio fígado, o primeiro sinal do que está para vir no país mais desenvolvido que visitarei nesta viagem) apanhei o Skyliner (o resto do fígado) para o centro.


Chegado ao meu hostel - que tem bastante piada, com as camas inseridas em estantes de livros (que serão sem dúvida pontapeados para o chão durante a noite) - deixei as minhas tralhas e fui dar uma volta rápida por Ikebukuro. Como era de esperar, Tóquio é um pequeno choque para alguém que passou as últimas semanas no Myanmar e no Cambodja, não só pela maneira como tudo funciona como um relógio suíço mas também pela multitude de luzes e sons que nos perseguem pelas ruas. Se Singapura é uma cidade limpa e austera, Tóquio é uma cidade limpa e com um caso sério de hiperatividade.


O metro, que apesar de sempre cheio não é mais claustrofóbico do que o de Londres em hora de ponta, é claramente a maneira mais prática de navegar pela enorme metrópole. Sempre que usei o Google Maps para perceber como chegar a um sítio o caminho de transportes públicos era mais rápido do que de táxi, o que é para mim sinal de uma cidade bem planeada. Mesmo assim consegui chegar a Shinjuku um minuto depois da hora combinada com a Ryoko, o que pelos vistos no Japão é uma contra-ordenação grave.  Bem tentei explicar que sou Português e que até cinco minutos de atraso não conta, e que demorei cerca de meia hora a desfazer a barba (que crescia desamparada há quase um mês), mas na verdade todos sabemos que tenho um problema crónico de atrasite aguda…



Depois de um excelente jantar num bar de Sushi seguimos pela vibrante zona de Shinjuku, onde parámos num salão de jogos cheio daquelas máquinas cheias de peluches que quando era miúdo nunca me deixaram agarrar o que quer que seja. A Ryoko queria, no entanto, introduzir-me ao bizarro conceito do MiMiy. Depois de entrarmos numa espécie de máquina de fotografia tipo passe e de iniciarmos um processo estranho que envolve tirar uma série de fotografias a fazer poses (claramente do conhecimento geral no Japão mas perfeitamente desconhecidas para mim) somos dirigidos para um ecrã onde podemos adicionar todo o tipo de efeitos às imagens resultantes - que por defeito já me alisavam a pele e triplicavam o tamanho dos meus olhos. O resultado está à vista, e creio que (neste caso mais do que nunca) uma imagem vale mil palavras.


Dois excelentes whiskys japoneses foram mais do que o suficiente para me fazerem sentir os efeitos de 72 horas em que o total de horas de sono não excedeu o número doze. Depois das despedidas e de apanhar o metro de volta (ainda com bastante gente, apesar de já passar da meia noite) nunca fiquei tão satisfeito por me encontrar dentro de uma estante de livros como neste preciso momento.

Beijos e abraços,
Ginete

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